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O portal do paraíso

O texto original da fotografia era "As portas e janelas estão fechadas" e a proposta de legenda "O portal do paraíso" indica a possibilidade de interpretação a partir de um arquétipo. A palavra "paraíso" tem origem no grego e significa o "jardim das delícias" (LEMAÎTRE; QUINSON; SOT, 1999:234-235).

A imagem cristã de portal do paraíso evoca duas direções, a de entrada no céu ou expulsão do Éden. A mitologia do paraíso e o banimento dos seres humanos, representados por Adão e Eva, está registrado na seguinte passagem bíblica: "e, expulso o homem, [Deus] colocou querubins ao oriente do jardim do Éden, e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida" (BÍBLIA, Livro de Gênesis, 3:24).

Os dois movimentos, de entrada e saída do paraíso, representandos pelo portal, estão ligados à experiência de transcendência da vida. Segundo Carl Jung, este arquétipo está ligado a rituais que revelam a "perpetuidade da vida através de transformações e renovações" (2008:122). A imagem pode ser representada também pelo destino de morte e renascimento de um herói.

Outra interpretação recorrente dos participantes se relaciona com a luz. As seguintes frases são exemplos destas associações: "a luz que enxerga é a mesma que cega", "Essa luz, essa luz... Não! Ela não ilumina, apenas clareia", "luz, brilho e passado", "luzes no escuro", "luz interior", "a porta é transparente à luz", "luz da janela", "O brilho na ou da janela?" e "A luz abre, um espaço no fechado". A menção à luz ocorreu em nove legendas (ou quase 6% das contribuições direcionadas a esta fotografia). A associação da imagem com a luz pode ser explicada por dois motivos. Primeiro, pela ausência da iluminação, uma vez que há um anel de escuridão se formando ao redor da figura. Segundo, há uma superexposição, principalmente no centro da imagem, que tornou a foto monocromática e com poucos detalhes.

É interessante notar ainda que os sentidos aferidos pelas legendas à luz são bem diversos. Algumas legendas são bem conotativas, estabelecendo uma relação indicial com a fotografia, como "luz da janela". Por outro lado, outras ultrapassam o caráter físico e geram um significado simbólico, como "luz interior". Há também as que levantam questionamentos com certo caráter filosófico. Por exemplo, a legenda "O brilho na ou da janela?" chama atenção para a sensação ambígua causada pela fotografia. Não é evidente se a janela está recebendo iluminação ou emitindo a luz.

Outro recurso utilizado pelos participantes foi propor perguntas, como ocorreu em: "Alguém vive lá dentro?" e "Onde está o número?". Considerando todos os textos — inclusive os rotulados com outras categorias — são sete legendas com interrogação, ou 4,5% das manifestações. A questão permite que o participante indique ausências, detalhes ou sentidos da fotografia, sem afirmar taxativamente, com toda segurança e certeza.

Outra estratégia utilizada foi a da intertextualidade, que correspondeu a quatro legendas ou 2,5% do retorno. Há a indicação do nome de uma banda em inglês, " The doors " (ou as portas) e de expressões populares, como "rabo de olho". O uso da intertextualidade é interessante porque retoma e torna presente outros sentidos, associados a outras situações e contextos, como por exemplo, os bastidores de uma peça de teatro, referido pela legenda "Por trás da cena".

Por fim, há participantes que encontram facilmente o sentido simbólico da imagem, enxergando inclusive elementos físicos que não são visíveis na fotografia. A legenda "Ninguém vê que no canto da porta está alguém" faz referência a uma pessoa que, em uma primeira leitura, não está evidente na foto.